Aos 98 anos do nascimento de José Wilson Siqueira Campos
Neste dia em que Siqueira Campos completaria 98 anos (1º de agosto), a memória faz curva e me leva de volta à estrada. Caminhar ao seu lado foi desbravar caminhos feitos de poeira e horizonte, onde cada passo era um voto de fé. Vi o Tocantins ganhar vida além do papel e Palmas florescer, imponente, do
silêncio do cerrado.
Não escrevo para saudar um mito ou erguer um monumento de palavras; escrevo apenas para conversar com o
amigo de sempre, que hoje habita noutro plano espiritual, mas permanece vivo em cada canto desta terra.
Siqueira nasceu no Crato, aos pés da Chapada do Araripe. Dizem que o sertão do Ceará ensina cedo aos meninos que a vida não se ganha, se conquista, o que concordo plenamente. Ainda na tenra adolescência, o destino o levou aos seringais do Amazonas, e ali conheceu o avesso do Brasil: o suor sem nome, o trabalho sem lei, a esperança presa na sangria. Ficou até os dezessete anos. Saiu de lá fugido, pela mão generosa de uma cozinheira que lhe abriu a porta da liberdade.
Sempre achei bonito que a história de um fundador de estado tenha começado assim, com a coragem anônima de uma mulher do povo. Ele nunca esqueceu. E eu diria que ali, naquela fuga de madrugada, o Divino Espírito Santo já soprava sobre ele, discreto como sopra o vento nas palmeiras.
No Rio de Janeiro, o jovem cearense dividiu seu primeiro período com Luís Carlos Prestes e ali moldou o vocabulário da sua política. Foi um divisor de águas, sem dúvida; a linha que separou o menino do homem público. Mas, por ter partilhado parte de sua intimidade e de seus silêncios, sou testemunha de que ele carregava no peito algo que nenhuma cartilha ensina, anterior a qualquer doutrina: a dor do povo batendo forte em seu próprio coração. Por isso, denunciou os abusos que testemunhara no seringal. Siqueira não sabia calar diante da dor alheia.
O destino uniu Siqueira a Aureny sob o céu do Rio. Tenista de pulso firme e sempre capaz de devolver o que a vida sacava, ela tornou-se sua primeira esposa, seu ponto de apoio e abrigo, gerando seis filhos nessa trajetória. Tempos depois, já no contexto do Estado criado, ele se casaria com Marilúcia Uchôa, com quem teve
outros dois filhos.
A história nos conta que no período em que morou em Campinas, São Paulo, Siqueira tinha um grande aliado. Uma
presença que tornou-se essencial: o rádio. Foi por ele que ouviu falar da Belém-Brasília, a estrada que rasgava o coração do Brasil. E o homem que um dia fugira dos seringais do Amazonas agora corria ao encontro de um sertão, por vontade própria, deixando tudo para trás.
Chegou à região de Bandeirantes no velho norte de Goiás e abriu uma madeireira. Gosto de pensar nesse detalhe: antes de construir um Estado,
ele talhava a madeira. E enquanto trabalhava, ele escutava. Escutava o povo contar seu sofrimento, o abandono, a distância dos poderes, a vontade de escola, de estrada, de médico. Foi dessa escuta que se fortaleceu o político. Quando Colinas se emancipou, saiu candidato a vereador. Eleito, presidiu a Câmara. Depois, Deputado Federal, chegou a Brasília carregando uma bandeira, e
nela, quem olhasse, veria a pomba branca do Divino. KE afirmo com convicção: não se entende Siqueira Campos sem compreender que sua fé no Divino Espírito Santo não era leviana. Foi bússola e farol. No chão daquele norte goiano, a devoção não era apenas rito; era o próprio gás do povo, espalhado nas poeiras do cerrado pelos foliões que carregavam, em cada pouso, o mistério da bandeira e a promessa de dias melhores.
É essa mesma chama que, firme e acesa, ainda hoje sustenta o coração do
Tocantins. Siqueira foi um folião. Percorreu cada cidade, cada povoado, cada beira de rio, levando não só a bandeira de pano, mas também
a notícia de que um dia seríamos donos do nosso destino. Por isso, com fé, ele lutou. Houve tocaias de pistoleiros. Houve prisão injusta. Houve jejuns em que ele apostou o próprio corpo para que o Brasil olhasse para nós. Eu vi de perto o quanto custou. Vi também que ele nunca esteve só. Havia uma luz que o acompanhava, e ele sabia o nome dela.
Em 5 de outubro de 1988, a Constituinte disse sim. Em 1º de janeiro de 1989, ele chegou a Miracema para tomar posse trazendo no bolso uma caneta Bic e nos ombros um Estado inteiro por fazer. O gabinete era simples, quase pobre: uma mesa de madeira, poucas linhas de telefone, nenhum luxo. No discurso de posse, diante do povo, ele disse que abaixo de Deus nada existia que o impedisse de dar as mãos a todos. E cumpriu.
Semanas depois, subiu num helicóptero para sobrevoar o cerrado entre a Serra do Carmo e o rio Tocantins. Lá embaixo, capim seco, pequizeiros, gado solto, um povoado chamado Canela. Qualquer um veria apenas mato. Ele viu uma Capital. Em 20 de maio de 1989, sob um sol escaldante, iniciou-se a celebração de uma missa campal, oficializando o lançamento da pedra fundamental de Palmas no chão onde hoje floresce a Praça dos Girassóis. Ao centro, uma cruz de pau-brasil talhada pelas mãos do artesão Arnildo Antunes, com o mapa do Tocantins e duas mãos
erguidas ao céu.
Naquele dia, Siqueira anunciou que a cidade seria bela porque seríamos nós a construí-la, sob a proteção do Divino
Espírito Santo. Não havia água encanada, asfalto ou sombra que bastasse. Mas havia muita fé. O nome, aliás, ele escolheu como quem encerra uma dívida: Palmas, em memória da Comarca de São João da Palma, onde em 1809 Teotônio Segurado plantou a primeira semente do nosso sonho de autonomia. Siqueira tinha essa elegância com a história. Sabia que não era o primeiro a sonhar, apenas o lutador que não deixou o sonho morrer.
Noventa e oito anos. O terno azul que ele vestia nos compromissos oficiais hoje repousa no Museu Palacinho, mas eu me recuso a procurá-lo em vitrines. Procuro Siqueira nas salas de aula do interior, no asfalto das rodovias, na ponte que encurtou distâncias, no menino tocantinense que nasce cidadão de um Estado que antes não existia. Procuro e encontro.
Há homens que morrem e viram saudade. Siqueira virou chão, virou mapa, virou nome de gente e de cidade. E quando os ventos atravessam a Praça dos Girassóis e fazem tremular alguma bandeira de folia, eu juro que reconheço o sopro. É o Divino, passando. E ele vai junto.
Conselheiro José Wagner Praxedes
